segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Sonoridades

Fica aqui a Anne Brun e a sua interpretação de «Don't leave me», que já me faz companhia há uns meses e tem suavizado muitas das minhas horas. A letra é tão bonita, tocante mesmo; a voz torna a melodia ainda mais doce e emotiva. Acho que vale a pena conhecer a cantora, esta música e outras. Tem um repertório bastante variado e interessante...


domingo, 6 de outubro de 2013

Arte

O amor não é feito de dois adolescentes aos beijos e abraços frenéticos. O amor é feito de dois velhos, um homem e uma mulher encarquilhados de vida, provavelmente de olhar ausente, sentados num banco de um jardim...


«Não sei, amor, se dado nos será
de envelhecer. Será que um de nós só morrerá
quando formos tão velhos que para o outro
não faz diferença nenhuma que aquele morra
(na velhice se vive de memória vaga)?
Será que tantos anos de amargura,
suspeitas, frustrações, raivas e ódios,
tudo isso, tempestade, de que é feito o amor
que os burros não entendem, nos serão
acrescentados desse sonhar juntos
em silêncio, num sorriso (que se esquece
e mesmo nos lábios se ignora)?
Uma velhice que foi vida e será vida
porque foi vida com que nos comemos
quotidianamente um ao outro,
vorazes como peixes num aquário
de vidro inamovível, tão opaco,
translúcido, às vezes, transparente sempre,
que é o amor?»

11 de junho de 1971
Jorge de Sena, «Nocturno de Londres», Poesia III, Círculo de Poesia, Moraes Editores, pp. 198 e 199

Gustav Klimt, The Tree of Life, 1909

Perfeito

Na página 357 do livro Walden ou a vida nos bosques, de Henry David Thoreau,  é-nos dito que «Não é preciso dinheiro para comprar o indispensável à alma.»...


(A foto é de «The eyes of children around the world»; a passagem foi transcrita da edição da editora Antígona )


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Sonoridades

A música portuguesa, de facto, está de muito boa saúde e RECOMENDA-SE. Fica aqui a proposta de audição deste «De cara a la Parede», d grupo A Naifa. O título desta música é igual a um de Lhasa de Sela. Não sei se há alguma relação... Espero que, um dia destes, A Naifa passe por cá...
 
 
 
Oiço ainda os corpos  vincar a noite
um campo minado
de corações tristes
explodindo o rosto na parede
foi talvez a nossa última canção
 
quando as paredes eram já outras
e nas caras se perdiam novos nomes
voltei a ela muitas músicas depois
foi talvez, a nossa última canção
 
o coração, que me deixaste 
é uma casa difícil de habitar
o coração, que me deixaste 
é uma casa difícil de habitar
 
um terrível verso solitário
e a culpa, de a ter levado
a um coração onde as canções
onde as canções
morreriam de frio
 
o coração, que me deixaste 
é uma casa difícil de habitar
o coração, que me deixaste 
é uma casa difícil de habitar
 
 

Das minhas leituras


Realmente é majestosa esta ilha onde tenho a sorte de viver. Nos dias de sol, como hoje, pelos caminhos que me conduzem até aqui (ao meu lugar dentro do lugar tão meu, que já é S. Miguel), apercebo-me sempre do milagre que é esta paisagem que me rodeia. Uau... por mais que a veja, não me canso, por mais que a fotografe, não a esgoto. É verdade que, de vez em quando, sinto aquela salutar necessidade de me afastar e vê-la de longe, todavia, levo-a sempre comigo. Sempre. Aliás, acho que é só porque a carrego em mim que consigo realmente apreciar e absorver outros lugares... muito diferentes do meu, parecidos com o meu, mais modernos que o meu, quem sabe mais civilizados que o meu, ou até talvez mais bonitos também, mas certamente não tão familiares nem amados como o meu. Aos meus olhos, claro.

José Luís Peixoto fala dessa consciência do «meu lugar» numa crónica que foi publicada na «Visão» há relativamente pouco tempo e que eu já li e reli de tanto que gostei, de tanto que me identifiquei com esse sentir... Fica aqui, com algumas supressões.

«Quando era pequeno, rodava sobre mim próprio com as pontas dos pés. Rodar-rodar-rodar: as formas a saírem dos contornos, as cores a misturarem-se demasiado rápidas e, depois, ao parar de repente, o chão como um barco debaixo da tempestade, a paisagem inteira a oscilar desgovernada, eu a tentar equilibrar-me e, ao mesmo tempo, criança, a apreciar esse caos. A seguir, a pouco e pouco, o horizonte abrandava e voltava a fixar-se.

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

Posso estar a falar com a minha mãe, como há dois dias atrás, e ela diz-me: aquele sobreiro que fica entre o campo da bola e o Monte da Torre. E, entre tantos, eu sei exactamente qual o sobreiro a que se refere. Essa é a precisão com que sei o meu lugar. As ruas, calcetadas com paralelos, suportam o meu pensamento desde que nasci. Em gestos largos, os muros são caiados anualmente porque o branco precisa de renovação, a pureza é uma tarefa permanente.
(...)
Entre o que me puxa de um lado e de outro, há o meu lugar a manter-me firme, a fornecer-me equilíbrio infinito. A diferença de forças é incomparável. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.Levo comigo uma origem e um destino. Levo comigo um sentido. Irreversível como um mergulho, não me perturbo. Eu tenho um lugar. Sinto que lhe conheço cada detalhe e, no entanto, todos os dias o exploro e lhe encontro novidade. No meu lugar, os sinos do adro dão as horas.
(...)
Assim, estou preparado para atravessar o mundo inteiro. E, se mais mundo houver, mais mundo será tocado pela minha pele. Mi-nha pe-le, palavras pronunciadas sílaba a sílaba. E nenhum continente é demasiado grande ou demasiado estéril para me impedir de atravessá-lo. E nenhum detector de metais conseguirá identificar o tamanho e os ângulos do lugar que levo comigo: amor. Repito: amor.

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso. (...)»

(O excerto é da crónica «O meu lugar», de José Luís Peixoto, in revista Visão de agosto, 2013; as fotos são minhas.)
 
 

 
 
 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Arte

PARIS por Nadir Afonso...

                        


PARIS por Jay Jay Johanson...

 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Em Dia Mundial da Música...

...lembrei-me de um documentário sobre Arthur Rubinstein a que assisti há pouco tempo (infelizmente, não registei a data...), na RTP2. Arthur Rubinstein (1887-1982) foi um talentoso pianista polaco e judeu que se naturalizou americano e ficou conhecido pelas suas magníficas interpretações de Chopin e Brahms. Um homem que passou pelos horrores da Segunda Guerra Mundial, mas que nunca perdeu o amor à vida, a crença na felicidade ou a paixão pela música clássica. O que me cativou nesse documentário não foi só a evidência musical do talento de Rubinstein, mas principalmente a forma como a peça conseguiu transmitir a jovialidade do seu ser, a alegria da sua postura perante a vida, apesar do passado de dor que, certamente, contribuiu para o envelhecimento do seu corpo, todavia, não da sua alma.

Deixo aqui algumas das frases que Rubinstein proferiu na entrevista incluída no documentário e que realçam a alegria com que encarava a vida . Também deixo um vídeo que atesta o seu virtuosismo na execução dos «Noturnos», de Chopin.

«Não há vida comparável a uma vida como a minha. Se me permitirem que diga algo quase indecente de presunção... nunca conheci de facto ninguém tão feliz quanto eu.»

«Sou um colecionador de momentos de eternidade.»

«Alguém me perguntou no outro dia: o senhor acredita na vida depois da morte? E eu disse-lhe: francamente, não... Mas, se houver, ficarei encantado, absolutamente encantado!»